Precisão e Experiência

2017

vídeo

9'59'', loop

cor, áudio

​Precisão e Experiência (2017) é uma videoperformance que enquadra uma mão, um celular e as páginas de uma agenda telefônica antiga. A ação é repetitiva: a mão digita um número, aguarda, e recebe sempre a mesma resposta automática, "esse número de telefone não existe". Um embate em loop entre a voz anônima robotizada, que a cada resposta dita a obsolescência daquele registro, e a tentativa infinita de realizar uma ligação entre tempo, memória e dispositivo. (A agenda pertenceu ao avô da artista).

 

Texto curatorial por Filippe Fernandes | 48º Salão de Artes Novíssimos

“O banquete está servido”, já dizia Mário Peixoto. No cardápio, uma dúzia de nomes. Inúteis, todos. Letras e números que se partiram na voz do tempo. Um manto de ausência estirado. Cadáver insepulto. Sobre ele, um dedo a digitar desejos que não calcam. Como ter expectativas do que não se marcou como corpo à voz do tempo? Porque toda a ação desempenhada na superfície deixa marcas, exceto na do vidro. Não há como marinar o que se faz ligeiro. No processo da escritura por intermédio de um vidro, mesmo cortando ao meio a vítima a que se refere o conteúdo da mensagem, nada muda. Porque a mensagem está isenta dos lastros. Porque a mensagem não se expressa senão pelo que informa e registra, n’algum chip eletrônico. Eis a memória do mundo. As distâncias comprimem-se à sucessão de imagens, à imagem de uma imagem. Entretanto, para onde foi o torto lirismo do cadáver insepulto e a poesia que nele possa residir? A essência devorada pela imagem da essência. Os leitores postos em preguiça e já sem tempo para a cumplicidade e o silêncio. Tempo zero."

https://issuu.com/galeriaibeu/docs/galeriaibeu-catalogo-novissimos2019 (Catálogo do 48º Salão de Artes Novíssimos - 2019)